
Em resumo, o cessacionismo argumenta que os dons espirituais, conforme descritos no Novo Testamento, não são mais necessários e teriam cessado. Essa visão se baseia na hermenêutica de partes específicas das Escrituras e na observação histórica da Igreja, concluindo que os dons foram restritos a um período inicial de confirmação da mensagem cristã e que, após esse acontecimento, não seriam mais necessários, pois já teriam cumprido seu propósito.
Os cessacionistas não se limitam a ensinar sua doutrina de cessação dos dons, como também muitas vezes fazem “apologética” contra o pentecostalismo. Seus membros mais radicais tratam o pentecostalismo clássico e demais pentecostalismos como heréticos. Há até mesmo certo proselitismo1 por parte de algumas lideranças, bem como aliciamento ou tentativa de aliciamento em relação à juventude pentecostal, promovidos pela tradição evangélica cessacionista.
Neste artigo, analisaremos alguns desses argumentos.
Os Dons Cessaram com o Fechamento do Cânon?
“O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado” (I Co 13.8–10).
Um dos textos mais utilizados para tentar comprovar a suposta cessação dos dons é 1Co 13.10. Na compreensão desses exegetas antissobrenaturalistas, “o que é perfeito” refere-se à Bíblia e, assim, com o fechamento do Cânon, o Espírito Santo teria cessado a concessão de dons.
Paulo está comparando o amor com os dons do Espírito e afirmando que o amor é mais importante do que as manifestações dos dons espirituais, porque o amor de Deus aos homens, bem como o nosso amor pelos irmãos e pela sociedade, são a causa dos dons. Aliás, Paulo já havia afirmado que, ainda que falássemos a língua dos anjos, tivéssemos toda ciência e conhecimento e realizássemos sacrifícios até o martírio, essas coisas, sem amor, nada seriam.
O amor de Deus é a origem e a motivação dos dons. Além disso, enquanto as profecias devem ser julgadas quanto à sua procedência divina e o conhecimento é parcial e limitado, o amor nunca falha. Ele é o caminho mais excelente e, enquanto os dons possuem validade temporal, o amor jamais acaba. De fato, o texto ensina que línguas e profecias cessarão, mas quando? Interpretar “o que é perfeito” como a conclusão do texto bíblico é uma leitura profundamente problemática.
O sujeito da expressão “quando vier”, conforme o próprio texto indica, aponta para a consumação plena: o Cristo, o Reino de Deus. Quando o Reino for plenamente manifestado, não haverá necessidade de ciência, línguas, profecias ou cura divina. O apóstolo prossegue afirmando: “Porque agora vemos por espelho, em enigma; mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12).
Vemos e conhecemos a Deus como por meio de um espelho, mas o veremos face a face. O amor permanece porque, como disse João, “Deus é amor”. Quando o tempo da plena manifestação do Reino chegar, as profecias e as línguas não serão necessárias. Contudo, enquanto esse tempo não chega, elas permanecem, embora não sejam mais importantes do que amar a Deus e às pessoas.
Como interpretar “o que é perfeito” como a Bíblia nesse texto, senão por uma predisposição em negar o pentecostalismo?
Se tal interpretação fosse coerente, seria necessário afirmar também que a ciência cessou, pois o apóstolo declara: “havendo ciência, desaparecerá”. Contudo, observa-se o desaparecimento da ciência, ainda que esta seja compreendida como conhecimento teológico parcial? Evidentemente, não.
Os próprios cessacionistas produzem ciência bíblica, livros e conhecimento teológico. Portanto, parte do texto se aplicaria e parte não? Uma análise cuidadosa demonstra o quanto essa interpretação se mostra frágil e tendenciosa. Não fiquemos apenas nesta explicação introdutória e consideremos o que teólogos de reconhecida reputação, tanto pentecostais quanto cessacionistas, afirmam sobre essa passagem.
William Barclay, em seu Comentário sobre 1 Coríntios, afirma que, nos versículos 8 a 13, Paulo ressalta dois aspectos centrais do amor cristão:
(1) Sublinha sua permanência absoluta: Quando todas as coisas nas quais os homens se vangloriam e se orgulham tenham passado, o amor prevalecerá. Em um dos mais maravilhosos versos líricos das Escrituras, o Cântico dos Cânticos (8.7) diz: “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo.” A única coisa inconquistável é o amor.
(2) Sublinha sua integridade absoluta: Paulo sente que nesta vida, só vemos os reflexos de Deus, e permanecemos com muitas coisas que são um mistério e um enigma. Embora em Cristo temos a revelação perfeita, nossas mentes só podem captá-lo em parte, devido ao fato de que o finito nunca pode abranger o infinito. Nosso conhecimento é ainda como o de um menino. No final, o véu se será removido e veremos face a face, e conheceremos tal como somos conhecidos. Jamais poderemos chegar a esse dia sem amor, porque Deus é amor, e só aquele que ama pode ver a Deus.”2
Barclay que não era pentecostal e nem carismático, mas ministro da Igreja Escocesa, e um exegeta criterioso não enxergou neste texto nenhuma alusão a cessação dos dons, e muito menos ligando isso ao fechamento do cânon.
Esta ideia de que a Bíblia substitui os dons e milagres é um delírio cessacionista, pois, para os primeiros cristãos, a Bíblia era apenas o Antigo Testamento, já que o Novo Testamento estava em construção, e não foi um projeto planejado. E nesta época, imaginado as Escrituras ser apenas o A.T, os cristãos não entenderam que não precisavam dos dons do Espírito. Assim como possuir a Lei de Moisés, não fez os hebreus/judeus extinguirem as profecias e negarem os milagres.
Gordon Fee em seu Comentário de 1 Coríntios afirma: “Agora, após a precedente descrição poética do amor, ele conclui o presente argumento com mais uma série de contrastes: o amor é o caminho acima de qualquer comparação, porque, em contraste com os dons, que funcionam apenas no âmbito de nossa presente existência escatológica, o amor caracteriza nossa existência tanto agora quanto para sempre. Paulo não está condenando os dons; está relativizando-os, colocando-os em perspectiva escatológica. Os dons propriamente ditos não pertencem ao futuro, mas apenas ao presente. Essas manifestações/dons, passarão (v. 8a); eles são ‘em parte’ (v. 9; ‘parciais’); são como a infância em comparação com a idade adulta (v. 11); são como ver um reflexo no espelho (em uma época posterior, como olhar para uma fotografia) em comparação com ver alguém face a face (v. 12).”3
Sobre a identificação do que Paulo fala ao citar “quando vier o que é perfeito”, o teólogo pentecostal explica:
Na vinda de Cristo, o propósito final da obra salvadora de Deus em Cristo terá sido alcançado; a essa altura, os dons agora necessários para a edificação da igreja na era presente desaparecerão, porque a “completude” terá chegado. Para citar a maravilhosa ilustração de Barth: “Porque o sol nasce, todas as luzes são apagadas”. A capacitação com os dons do Espírito é apropriada, por analogia, à vida atual da igreja, especialmente porque, com base no ponto de vista de Paulo, elas são a operação ativa do Espírito na vida coletiva da igreja. Por outro lado, esses “dons” são igualmente inapropriados para a existência final da igreja, porque, conforme ele passará a raciocinar, então “conhecerei plenamente, da mesma maneira que sou plenamente conhecido” (v. 12). Daí o contraste implícito com o amor, que nunca findará. O amor não elimina os dons no presente; em vez disso, ele é absolutamente essencial à vida cristã, tanto agora quanto para sempre. Por outro lado, os dons/manifestações não são para sempre; eles ajudam a edificar o corpo na assembleia reunida do povo de Deus — mas só no presente, quando tal edificação é necessária.4
Perceba que tanto o teólogo cessacionista quanto o pentecostal colocam o momento de os dons cessarem numa perspectiva escatológica, a qual é clara no texto. Os dons cessam quando Cristo vier, quando o Reino vier, e não quando a Bíblia foi completada. Vamos usar um último teólogo cessacionista para corroborar nosso argumento que a exegese de parte dos cessacionistas deste texto afirmando a cessação dos dons, não encontra eco nem mesmo na melhor literatura produzida por eles.
Calvino em seu Comentário da Primeira Carta aos Coríntios não defende a ideia que a Bíblia é o que é perfeito, e por isto, os dons cessaram. Ou seja, alguns calvinistas parecem que discordam de Calvino.
Diz assim o teólogo da Basileia:
Quando tivermos alcançado o ponto de chegada, então as coisas que nos ajudaram no percurso deixarão de existir.” No entanto, ele usa a mesma forma de expressão anterior, ao pôr a perfeição em contraste com o que é em parte. Ele está dizendo: “Quando a perfeição chegar, tudo quanto nos auxiliou em nossas imperfeições será abolido.” Mas, quando tal perfeição virá? Em verdade, ela começa na morte, quando nos despirmos das inúmeras fraquezas juntamente com o corpo; ela, porém, não será plenamente estabelecida até que chegue o dia do juízo final.5
Vemos que mesmo entre os cessacionistas, esta interpretação que a completude do texto bíblico cessou os dons não é endossada por todos, e nem pelos melhores dos seus teólogos. Da mesma forma, nós pentecostais e carismáticos temos interpretações ortodoxas e coerentes deste texto, sendo demonstrada aqui a total ineficácia deste argumento.
A Suposta Cessação Gradual dos Dons
Jack Deere escreveu a respeito da origem da doutrina do cessacionismo: Nenhum cessacionista chegou à conclusão de que Deus não opera mais sinais e maravilhas, e que os dons do Espírito Santo já passaram, pela simples leitura da Bíblia. A doutrina do cessacionismo não se originou do estudo cuidadoso das Escrituras. Ela nasceu da experiência.6
A afirmação da suposta cessação dos dons com o fim da era apostólica ou da geração apostólica coloca o suposto fim dos dons no mesmo momento do argumento anterior, por volta de 100 d. C. Conectar a manifestação de dons a era apostólica é um erro, e podemos provar isto por meio do texto bíblico. Em primeiro lugar, Atos dos Apóstolos deixa bem claro que os operadores de milagres, curadores, profetas, e falantes de “línguas estranhas” nunca estiveram restritos a atuação dos apóstolos. Ainda que eles tiveram um ministério com sinais abundantes de poder (em especial os relatos de Pedro e Paulo), diversos outros personagens que não eram do colégio apostólico manifestaram dons e sinais.
Quando houve o derramamento do Espírito estavam presentes 120 pessoas (At 1.15), e o grupo apostólico era de 12 pessoas. Lucas informa que todas estas pessoas foram “cheias/batizadas” com o Espírito (At 2.4). Ora, se não apenas os apóstolos receberam o Espírito como poder para o serviço e edificação pessoal com sinais externos, por que motivo com a morte do último apóstolo cessariam os dons que nunca foram exclusividades apostólicas? Qual a lógica disto?
Pedro citando Joel pregou dizendo – “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne” (At 2.17a).
Alguns cessacionistas defendem que os dons sumiram gradualmente na história da igreja, o que nós mostramos ser um erro no capítulo que tratamos da história do pentecostalismo. Parte da sua argumentação afirma que quando Deus dá uma nova revelação especial, Ele emprega métodos extraordinários, tais como profecia e línguas, a fim de entregar a revelação e sinais extraordinários (como milagres) para confirmar aqueles que devemos receber (profetas e apóstolos) como portadores inspirados da revelação.
Consequentemente, quando Deus não está fornecendo uma nova revelação especial, Ele não usa métodos extraordinários e sinais; antes, Ele opera em e por meio da exposição da Sua revelação especial (Escritura), através de mestres capacitados e presbíteros devidamente escolhidos.7
É perceptível que este argumento não é textual. Qual texto da Escritura eles estão usando? Nenhum. É um argumento lógico que parte de um pressuposto cessacionista e chega à conclusão que a Bíblia substitui os dons, ainda que a Bíblia não diga isso em parte alguma. Eles argumentam que a ausência de profetas na história como do período intermediário entre o Antigo e o Novo Testamento indicam que milagres são condicionados a uma revelação especial de Deus, e tendo nós, agora a última revelação, nada precisamos, senão de pregar a Escritura, ainda que a Escritura ensine a atualidade dos dons, e os coloque em notória incoerência.
O argumento é falacioso, porque a ausência do registro de milagres em determinado período histórico não significa ausência de milagres necessariamente. Ora, se pararmos de registrar a história por escrito, por áudio ou vídeo, significa que ela não existirá de fato?
Além disso, Deus nunca condiciou milagres a uma nova etapa da sua Revelação aos homens. Isto é pura fantasia. Ao contrário, ao relacionar o derramamento do Espírito ao aspecto escatológico “últimos dias”, Pedro compreendeu este período desde a sua pregação até o fim dos tempos.
Quando Pedro explica os eventos de Atos 2, apela a Joel 2.28-32, profecia que descreve a obra de revestimento de poder do Espírito (profecia, sonhos, visões). Além disso, a frase introdutória a essa profecia, “e, depois disso” (J1 2.28), é mudada no sermão de Pedro para “nos últimos dias” (At 2.17), enfatizando assim a obra característica de poder pelo Espírito durante os “últimos dias.” A conclusão do sermão de Pedro (2.38,39), portanto, deve ser entendida à luz desse contexto, e não por meio de um contexto paulino, importado.8
Se estamos na última hora, e no último minuto dos “últimos dias”, como pois, cessariam os dons do Espírito? Sabem mais os teólogos cessacionistas que Pedro e Lucas, autor da frase e do Livro respectivamente?
Conclusão
O movimento pentecostal tem afirmado, desde o seu surgimento, que a manifestação do poder do Espírito Santo nos “últimos dias” permanece como realidade contínua da Igreja. Convictos, proclamamos a natureza carismática permanente da Igreja revestida pelo poder do Espírito.9
Sobre o colunista
André Luís é pastor, Master em Teologia pela FAETEO Bacharel MEC em Teologia pela UNIGRANRIO. Professor de Teologia sistemática, bíblica e pública. Escritor e Consultor Literário. Siga no Instagram https://www.instagram.com/andreluismestre?igsh=cTlmeTFsYXNtcmQ5
